DESCRIÇÃO DO CONTEXTO

Gabriela, cravo e canela é um romance urbano, passado quase todo na rica cidade de Ilhéus da década de 1920, apresenta em sua narrativa coronéis e jagunços, prostitutas, imigrantes e sinhazinhas envolvidos em manobras políticas e tramas de amor, crime e adultério. Recheado de humor para a ironia e com uma movimentação de caráter quase burlesco, o livro marca a virada nos procedimentos artísticos e políticos de Amado, que depois viria a escrever Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966) e Tieta do Agreste (1977). E nessa fase se encontram ainda as novelas Velhos Marinheiros (1961 - Globo) e Tenda dos Milagres (1970 - Globo), esta adaptada ao cinema.

Em Gabriela, o cacau não gera mais sangue, mas sim riqueza, e seu perfume maduro mesclam-se ao aroma das flores da estação e à sensualidade da protagonista. Trata-se de uma crônica da modernização dos costumes, a narrativa segue assim, do geral ao particular e do particular ao geral, residindo nesse movimento, em que se entrelaça o ir-e-vir de dezenas de personagens representativos, histórias separadas, mas juntas em um enredo criado por Amado. De grande apelo e repercussão, contribuiu para formar, junto com outras obras ficcionais do autor, a imagem “exótica” do Brasil no exterior, já que o mesmo foi sucesso de traduções em mais de trinta e três idiomas.

Além dos romances na obra Jorge Amado mostra também o prédesenvolvimento de Ilhéus e tece algumas definições dos requisitos que compreende o ser grapiúna e, portanto ser considerado como indivíduo apto a pertencer ao local:

“Bar era um bom negócio em Ilhéus, melhor só mesmo cabaré. Terra de muito movimento, de gente chegando atraída pela fama da riqueza, multidão de caixeiros-viajantes enchendo as ruas, muita gente de passagem, quantidade de negócios resolvidos nas mesas dos bares, o hábito de beber valentemente e o costume levado pelos ingleses, quando da construção da Estrada de Ferro, do aperitivo antes do almoço e do jantar, disputado no pôquer de dados, hábito que se estendera a toda população masculina.” (AMADO, 1970, p. 69)

Aqui Jorge Amado deixa claro dois aspectos importantes. O primeiro se refere à contextualização situacional da cidade: Ilhéus era um centro no qual se reuniam várias pessoas atraídas pelo progresso, quer seja para desfrutar dos seus prazeres devido à condição econômica, quer seja devido à visão de aproveitar a onda de crescimento para lucrar, como no caso dos comerciantes, caixeiros, viajantes e outros. O segundo aspecto importante que se observa é a afirmação de que os hábitos desenvolvidos com a nova configuração da cidade se restringiam à população masculina.